Biodiversidade, sustento e culturas 85/2015

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Biodiversidade, sustento e culturas 85/2015

biodiversidade3Como resistir às forças do esquecimento
Por John Berger 
Há algumas semanas o quadro Les femmes d’Alger, pintado por Picasso em 1955 (há 60 anos), foi vendido em Christie’s de Nova York pela soma de 180 milhões de dólares. Parte da decisão de pintá-lo foi inspirada pelo desejo de anunciar seu respaldo ao povo argelino em sua luta e sua guerra contra o colonialismo francês, que havia começado um ano antes.
Hoje é o dia da Ascensão, quarenta dias depois da Páscoa. Segundo os Evangélios, este foi o dia em que Cristo, como testemunharam seus discípulos, ascendeu pelo ar para os céus. E na terra o povo ficou abandonado a sua sorte. Mensagem – não falta dizer mais nada – pois nunca podem verbalizar-se, e que não estão dirigidos particularmente a nós. É possível “ler” as aparências naturais como textos?
Para mim não há nada místico neste exercício de desenho. É um exercício gestual cujo propósito é responder a diferentes ritos e formas de energia – que gosto de imaginar como textos de uma linguagem que não nos foi oferecida para ler. E não obstante, conforme esboço o texto me identifico fisicamente com a coisa que estou desenhando e com a incomensurável língua mãe em que está escrito.
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Na ordem global totalitária do capitalismo financeiro especulativo em que vivemos, os meios não deixam de nos bombardear com informação, mas esta informação é quase sempre uma diversão planejada, que nos distraia atenção do que é certo, essencial e urgente.
Muita desta informação tem haver com o que alguma vez chamamos política, mas agora a política foi submetida pela ditadura  global do capitalismo especulativo, com seus comerciantes e grupos bancários de pressão.
Os políticos, tanto de direita como de esquerda, continuam em seus debates, em suas votações, na aprovação de resoluções, como se não fosse assim. O resultado é que seu discurso não se refere a nada. É inconsistente. As palavras e os termos que utilizam e repetem – como terrorismo, democracia, flexibilidade – se esvaziaram de qualquer significado. Por toda parte do mundo seus públicos seguem suas cabeças falantes nas quais se observam um interminável exercício escolar ou uma aula onde aprenderam retórica. Pura merda.
Outro capítulo da informação com que nos bombardeiam se concentra no espetacular, nos eventos violentos e chocantes, onde queira que ocorram pelo mundo. Assaltos, terremotos, embarcações capturadas, insurreições, massacres. Uma vez mostrados, qualquer espetáculo é substituído por outro.
Juntamos a isto a prática linguística utilizada pelos meios em sua representação e descrição do mundo. É muito próxima da linguagem e lógica dos especialistas em administração e gestão. Quantifica tudo e quase não faz referencia a sustância ou a qualidade. Ocupa-se das percentagens, das mudanças nas pesquisas de opinião, das cifras do desemprego, as taxas de crescimento, as crescentes dívidas, as estimativas de dióxido de carbono, etcétera, etcétera. É uma voz que se sente bem com os dígitos, mas nada tem haver com os corpos vivos,  ou com os que sofrem. E não fala nem de arrependimentos nem de esperanças.
Então, o que se diz publicamente e o modo em que se diz promovem uma espécie de amnésia cívica e histórica. A experiência nos é tirada. Os horizontes do passado e futuro se apagam. Estamos sendo condicionados a viver em um interminável e incerto presente, reduzidos a ser cidadão no Estado do Esquecimento.
Enquanto o que acontece em nosso redor vai de mal a pior. O planeta se aquece. A riqueza do planeta está sendo concentrada em menos e menos mãos, enquanto a maioria está mal alimentada, não encontra outra coisa que comida ruim ou passa fome. Mais e mais milhões de pessoas estão sendo forçadas a emigrar com ínfimas possibilidades de sobreviver. As condições de trabalho se tornam mais e mais desumanas.
Aqueles que estão prontos para protestar contra o que ocorre hoje, ou resistir frente a estas forças, são Mercenários. Mas os meios políticos para fazê-lo neste momento são pouco claros ou estão ausentes. Necessitam tempo para se desenvolver, assim que é preciso esperar. Mas como esperar em tais circunstâncias? Como esperar nesta condição de esquecimento?
Recordemos que o tempo, como explicaram Einstein e outros físicos, não é linear e sim circular. Nossas vidas não são pontos em uma linha – uma linha que hoje é amputada pela voracidade instantânea da ordem capitalista global sem precedentes. Não somo pontos em uma linha, somos os centros de círculos.
Tais círculos nos rodeiam com testamentos dirigidos a nós por nossos predecessores desde a Idade da Pedra, e por textos que não se dirigem a nós, mas que nós presenciamos. São textos da natureza, do universo, e nos recordam que a simetria coexiste com o caos, que o ingênuo pode burlar as fatalidades, que o que desejamos nos tranquiliza mais que as promessas.
Então, mantidos pelo que herdamos do passado e pelo que testemunhamos, teremos a coragem para resistir e continuar resistindo em circunstâncias ainda inimagináveis. Aprenderemos a esperar na solidariedade.
E ao infinito seguiremos valorizando que juremos e maldigamos em todas as línguas que conhecemos.

biodiversidade3BIODIVERSIDADE
Sustento e cultura
Edição 85, julho de 2015
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Organizações Coeditoras: Ação Ecológica, Ação pela Biodiversidade, Campanha das Sementes da Via Campesina – Anamuri, Centro Ecológico, CLOC-Vía Campesina, GRAIN, Grupo ETC, Grupo Sementes, Rede de Coordenação em Biodiversidade, REDES-AT Uruguay, Sobrevivência
Administração: Lucía Vicente
Edição: Ramón Vera Herrera
ISSN: 07977-888X

Biodiversidade, sustento e culturas é uma publicação trimestral de informação e debate sobre a diversidade biológica e cultural para o sustento das comunidades e culturas locais. O uso e a conservação da biodiversidade, o impacto das novas biotecnologias, patentes e políticas públicas são parte da cobertura. Inclui experiências e propostas na América Latina, e busca ser um vínculo entre aqueles que trabalham pela gestão popular da biodiversidade, da diversidade cultural e do autogoverno, especialmente das comunidades locais: mulheres e homens indígenas e afroamericanos, camponeses, pescadores e pequenos produtores. 

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