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Um olhar feminista sobre a violência econômica

Qual o vínculo entre economia e violências desde a perspectiva dos feminismos do sul global? Este texto constitui uma contribuição para pensar que a produção de violências não é um fato isolado, mas um fenômeno global, ancorado territorialmente no marco da aliança entre capitalismo, patriarcado e colonialidade.

Esta análise torna-se urgente no marco de uma crise social e sanitária que exacerbou o extrativismo, a concentração da riqueza, a precarização da vida e o controle digital y militar da população. No marco da pandemia e das medidas adotadas como resposta, as violências pioraram em todos os âmbitos: institucional, laboral, político, midiático, digital, ambiental; assim como em diferentes expressões: física, económica, simbólica, sexual, psicológica, padecidas fundamentalmente pelas mulheres, crianças e pessoas LGTBIQ+.

Neste cenário, resultam chaves os aportes teóricos e políticos que possibilitam hierarquizar a gestão popular da crise e a potência dos feminismos anticapitalistas para construir outros mundos possíveis.

Desentranhar as violências para transformar o mundo que nos toca

Por que continua sendo necessário analisar como funcionam as violências patriarcais? O movimento feminista, com seu crescimento e potência conseguiu politizar a vida diária, sinalizar que as violências que nós mulheres e pessoas LGTBIQ+ sofremos não são individuais, mas ancoradas nas desigualdades de um sistema histórico. Mas também compreendemos que que as violências patriarcais são escritas no plural, porque têm múltiplas formas: física, psicológica, sexual, laboral, econômica, e todas essas formas estão entrelaçadas e enraízam em nossos corpos, mentes e emoções.

O avanço feminista global – com enorme força na América Latina – conseguiu também posicionar uma ideia chave: que as violências patriarcais têm uma origem material, enraizada no modo de produção econômica capitalista. A frase “se nossas vidas não valem, produzam sem nós”, dá conta da centralidade da exploração do corpo e do tempo das mulheres e das dissidências sexuais, como sustento invisibilizado da produção capitalista. E seu oposto, a desvalorização das vidas de quem aparecem como corpos descartáveis na dinâmica do capital, a partir da lógica do tráfico de pessoas, os feminicídios, a superexploração laboral, a feminização da pobreza e a exclusão social.

Como outra face do mesmo processo, os feminismos conseguiram posicionar a noção de que a sustentação das vidas e das comunidades é garantida por esse trabalho não reconhecido, invisibilizado ou subvalorizado, que as mulheres continuam realizando, apesar das crises, mesmo além do mercado e do Estado. É esse mesmo trabalho de sustento e de organização o que levou as mulheres e as dissidências a estar na primeira linha de defesa de suas comunidades contra projetos extrativistas, megaobras e empreendimentos poluentes, que atentam contra a possibilidade de continuar reproduzindo a vida em um determinado lugar. Nestes casos, vemos como os poderes concentrados por trás destas iniciativas perseguem, criminalizam e assassinam as defensoras dos povos e da natureza que resistem a avançada capitalista em cada território.

Todos estes aprendizados ganharam corpo nas greves internacionais feministas dos 8 de março, a cada vez mais difundidas no mundo e acompanhados por maciças demonstrações. O lema de realizar uma greve de todos os trabalhos femininos e feminizados, a partir da frase “nós que movemos o mundo, agora o detemos”, marca a importância econômica dos cuidados, ao tempo que se torna em uma greve contra as múltiplas violências que sofremos.

Como parte disso, convidamos a ler um texto complexo, que, por sua vez, nos parece um texto base para compreender as raízes sistêmicas da violência. As autoras deste livro escrevem em forma de diálogo e enraizadas nas lutas populares e feministas na Argentina, Equador e Peru. Entrelaçando diferentes disciplinas, análises macro e experiências localizadas, elementos quantitativos e qualitativos, este trabalho dispara contra interrogantes vitais:

Como a violência e o sistema econômico se imbricam? Que formas estas violências patriarcais adquirem? Que aspectos destas violências são afetados pela pandemia? Que ferramentas temos para resistir o capitalismo patriarcal?

Hoje, com a pandemia originada pela COVID-19 e pela crise sanitária e social, a reflexão sobre as violências econômicas torna-se ainda mais indispensável. A pandemia faz mais visíveis as desigualdades que já existiam, aprofunda-as, e torna a sobrevivência das maiorias em qualquer lugar no mundo ainda mais complicada. Neste cenário, mais uma vez, para além das políticas públicas díspares e insuficientes ensaiadas pelos governos, é o trabalho invisível ou pouco reconhecido das mulheres e das dissidências o que sustenta os territórios populares. As quarentenas multiplicaram os femicídios e a violência dentro do lar, e foram novamente as organizações feministas que tiveram um papel central na defesa das vítimas e na demanda perante o Estado. Apesar do isolamento, e com grande esforço, as articulações ao redor do mundo, a solidariedade internacional, as reclamações e os debates foram mantidos. Quer dizer, a luta não parou, e o cenário se complexificou, o que nos faz multiplicar esforços para afinar as análises sobre o mundo que nos toca combater.

Este livro faz parte dos esforços para sistematizar os aprendizados dos feminismos a partir das nossas lutas e reflexões coletivas. Provocamos vocês para uma leitura atenta, que possa nutrir nossas práticas para mudar uma sociedade onde todas/es sejamos livres.

Juliana Díaz Lozano
Coordenadora de projetos no programa Feminismo Global
Fundación Rosa Luxemburgo
Abril 2021

 

“Então, os legados, os escritos, a obra e a construção de Rosa Luxemburgo inspira a nós, mulheres, que alçam e pensam ocupar um cargo político a nos colocarmos e a sermos protagonistas de uma transformação e de uma revolução social”, diz Erika Hilton, vereadora na cidade de São Paulo. As mulheres parlamentares e ativistas do Brasil, Chile e Alemanha refletem sobre a importância de Rosa Luxemburgo para sua prática atual.

Fala:
Erika Hilton, vereadora na cidade de São Paulo (Brasil).
Jô Cavalcanti, co-deputada estadual pelo mandato coletivo das Juntas em Pernambuco (Brasil).
Frigga Haug, filósofa (Alemanha).
Cornelia Möhring, porta-voz em matéria de política de mulheres da bancada DIE LINKE no Parlamento alemão (Alemanha).
Pierina Ferretti, Fundação Nodo XXI (Chile).
Janine Wissler, membro do Comitê Executivo do DIE LINKE e Chefa da bancada parlamentar do partido no estado federado de Hesse. Enquanto isso, a lidera o partido (Alemanha).

https://rosalux.org.br/

Nas últimas décadas, ultraliberalismo impôs o modelo agropecuário que pode ter gerado o novo vírus. Serviços sociais foram cortados e remédios e insumos hospitalares protegidos sob patente. Superar este projeto exige colocar a vida no centro.

Corre na internet um enorme número de notícias e artigos sobre a pandemia que nos acomete, na sua dimensão de crise sanitária, mas também enquanto colapso econômico que já começa a se notar, e em suas outras dimensões: políticas, sociais e ambientais. Entretanto, poucos deles direcionam a análise sobre o retrovisor, a ver como chegamos até aqui.

Escrevendo desde a América Latina, esse olhar retrospectivo não deve ser um esforço retórico, senão a forma de analisar as causas que motivaram em grande parte esta gigantesca crise do neoliberalismo, agora dramática pelo temor pandêmico.

Por esse motivo, considero necessário em primeiro lugar enfatizar que esta crise que se prognostica prolongada resulta em grande medida das políticas neoliberais que vêm sendo implementadas nas últimas décadas. Variadas são essas macropolíticas que estão mostrando agora seus efeitos nefastos. Aqui tentaremos focar em duas delas, a promoção do “livre comércio” e a liberalização dos investimentos, políticas que podem ser consideradas bases da globalização que se expande desde os anos 80, e que atualmente recrudescem em seus efeitos que faz muito tempo denunciamos (2).

Tratados vampiros

Foram os acordos de livre comércio (TLCs) e a flexibilização dos fluxos de capitais através dos acordos de Investimento (TBIs) impostos pelos países do Norte, especialmente EUA e Europa, e depois pela OMC (Organização Mundial do Comércio), os que facilitaram a integração do mundo produtivo agrícola e industrial especialmente, e da maior parte das atividades econômicas, dentre elas os diversos serviços.

A liberalização do comércio agrícola – desenhando a brutal concentração das terras para monoculturas na maior parte dos países de América Latina – para a exportação das commodities (soja, carne, frango etc.) e de outros produtos primários, como madeira, pesca, frutos da floresta, etc., agravada “pela exacerbação no uso de agrotóxicos, pela presença de antinutrientes, pela contaminação da água, pela dilaceração dos ecossistemas e pelos crimes socioambientais” (3) questões todas que estão provocando neste momento a fragilização do sistema imunológico da população, e as graves perspectivas de colapso da segurança e da soberania alimentar e nutricional em nossos países.

Por sua vez, a abertura das fronteiras nacionais para a entrada das grandes empresas transnacionais no comércio de serviços (4) foi determinante nos processos de privatização, especialmente dos serviços essenciais como saúde, distribuição de água, saneamento, energia, educação e pesquisa científica, telecomunicações etc. Serviços atacados pelo desmonte dos Estados e suas políticas públicas e que se encontram hoje no centro da crise sanitária e social.

Se somarmos a isto as negociações de Propriedade Intelectual através da extensão do sistema de patentes, especialmente para medicamentos, instrumentos médicos, sementes, tecnologias industriais, técnicas audiovisuais etc (5) completamos o quadro de colapso em que o mundo está entrando.

Finalmente, sinalizar a importância da liberalização global dos fluxos de investimentos promovida pela desregulação financeira, e assentada na demanda por segurança jurídica persistentemente alentada pelas grandes corporações transnacionais, é com certeza enxergar o pilar fundamental do crescimento do sistema da dívida pública e privada, e das bolhas financeiras especulativas. Sua detonação na crise de 2008, que se arrasta até agora, explode novamente dissimulada pelo vírus que, aliás, pagará seus custos. O coronavírus só precipitou em forma trágica a crise surgida na corrida de desregulação financeira neoliberal. Uma brutal crise do capitalismo que, obscurecida pela pandemia, conseguirá provocar um colapso econômico de proporções nunca vistas a escala global, ainda mais intensa pela aposta que fazem as elites nacional e globalmente por continuar nesse capitalismo de cassino, como estamos presenciando mais uma vez (6).

Poderíamos listar muitos outros elementos das políticas neoliberais e das negociações internacionais das últimas décadas que agiram como argamassa da crise atual. Entretanto, esses quatro aspectos dos acordos de comércio e investimentos formam o principal núcleo duro da problemática que nos arrastou a esta crise econômica, social e também sanitária.

Fracasso neoliberal

A falta de políticas públicas de saúde de atendimento universal, a carência de pessoal para atendimento das pessoas afetadas, a precariedade das instalações e do instrumental médico necessário, a falta de investimento em pesquisa científica, dentre outros aspectos cruciais para o enfrentamento da epidemia em cada país, mostram cruamente as políticas neoliberais falidas.

Tudo isso somado ao modelo alimentar das populações baseado na agricultura química, na criação industrial de animais e na perda significativa de biodiversidade, aliás, um dos motivos já comprovado para proliferação de novos vírus – que refletem o modelo produtivo desenhado pela globalização neoliberal, com a perversa divisão internacional do trabalho que tem-se intensificado, condenando a América Latina à deriva extrativista. Por sua vez, a atuação dos lobbies farmacêuticos em torno a uma possível vacina, e a outros insumos hospitalares e de saúde, protegidos pelas patentes e os sistemas de demandas dos investidores sobre os Estados, também não são tranquilizantes.

Nesse sentido, as mulheres, ligadas ao cotidiano da vida e responsáveis cotidianas pela subsistência de milhões de pessoas, sofrerão enormes impactos dessa ausência de políticas públicas que vem reforçar a pandemia, tanto com o aumento do seu trabalho para suprir essas carências, como também pela sua maior presença nos mercados informais e o maior desemprego que sofrem na maior parte dos países da região (7). O custo e o endividamento resultantes do enfrentamento a esse cotidiano, com a carga reforçada pela epidemia, já está sendo adicionado sobre as costas das mulheres, e muito em breve se verá traduzido no reforço às desigualdades de gênero das sociedades latino-americanas.

A insegurança alimentar e a quebra da soberania alimentar em inumeráveis países torna-se uma perspectiva palpável a curto e médio prazo, aceleradas por um sistema agroalimentar industrial tóxico, e agora ameaçada pela queda do comércio internacional que seria pretensamente o recurso a ser utilizado pelos países, segundo as argumentações de quem alentava o agronegócio exportador nos países do sul global.

O trilionário apoio dos governos de EUA e da Europa aos maiores bancos privados para a derrama de apoio às populações e empresas atingidas pela crise tem um estilo de filme revisitado que já conhecemos, e que só aprofundou a crise em 2008. Os governos voltam a emprestar às empresas e as pessoas num momento com um nível muito elevado de dívida privada, em percentual da dívida em inúmeros países (8). Percorrer novamente a cadeia de endividamentos de empresas e especialmente das famílias para não diminuir o fluxo de consumo global não traz expectativas animadoras (9)…

Porém e como sempre, “nas crises não existem neoliberais” e ninguém se lembra dessas políticas nefastas. Assim, as soluções do sistema capitalista voltam a apontar sem pudor para o auxílio dos Estados, desmontados pelas políticas de “austericídio”, para recuperar o comércio internacional e as falidas cadeias globais de produção e para salvar o sistema financeiro e os bancos “grandes demais para quebrar”.

Esses apontamentos e questionamentos, ainda que muito resumidos, buscam nutrir reflexões que devem ser feitas com urgência, para que nos permitam avançar em formas novas, em âmbitos locais, nacionais e até internacionais de encarar os sistemas produtivos, o comércio internacional e as mudanças necessárias para a garantia de uma vida digna para as populações do mundo.

Diante desses dilemas, o feminismo, em reiteradas oportunidades, tem oferecido a mirada da economia feminista, que insistentemente vem trazendo a perspectiva de um mundo igualitário e falando em colocar “a vida no centro”. Talvez seja o momento de ouvir essa voz…

 *A autora é coordenadora do Instituto EQÜIT –Gênero, Economia e Cidadania Global, forma parte da Rede de Gênero e Comercio e é membro da Coordenação da REBRIP -Rede Brasileira pela Integração dos Povos.

(2) http://www.rebrip.org.br/

(3) Marciano Silva e Leonardo Melgarejo https://mpabrasil.org.br/noticias/artigo-ogms-15-anos-no-brasil-em-epoca-de-coronavirus/

(4) Adhemar Mineiro, “Acuerdos comerciales entre la UE y las Américas – Algunos elementos comparativos”, ISP-PSI, abril 2019

(5) www.deolhonaspatentes.org

(6) Graciela Rodríguez (org.), “O sistema financiero e o endividamento das mulheres”. Instituto Equit/Rede Gênero e Comercio, 2020.

(7) Alma Espino, “Una mirada feminista sobre una región convulsionada”, Red de Género y Comercio, Buenos Aires, 2019.

(8) Mariana Mazucatto http://obela.org/nota/la-triple-crisis-del-capitalismo

(9) Norma Sanchis (org.), “Mujeres ante la crisis: Endeudarse para vivir”,Red de Género y Comercio, Buenos Aires, 2019.

O  racismo antinegro, estabelecido globalmente, permite às negras e negros incorporar experiências que dizem respeito não apenas a realidade mais imediata, mas também a de outros negros, mesmo que nunca as tenhamos vivenciado diretamente.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


 

Por Douglas Belchior*

Ao longo de séculos, a partir do fenômeno da diáspora africana, duas condições se instituíram permanentemente reais na vida de africanos e seus descendentes na América: A primeira é de que, negros são um grupo em que a dimensão de raça extrapola qualquer outra condição. Ou seja, um negro é antes de tudo um negro, com todas as conotações de subordinação que isto implica, em qualquer parte do chamado Novo Mundo.
A outra condição tem a ver com o fato de que o racismo antinegro, estabelecido globalmente, permite às negras e negros incorporar experiências que dizem respeito não apenas a nossa realidade mais imediata, mas também a de outros negros, mesmo que nunca as tenhamos vivenciado diretamente. Há elementos na nossa identidade negra que são globais. E isto ocorre mesmo considerando que ela é mediada por diferenças nacionais, de gênero e de classe social.
As ações e formulações que visam enfrentar ideologias, grupos e estruturas que sustentam o racismo também contemplam projetos adotados por negros em diferentes circunstâncias. Embora isso não signifique que modelos de luta contra o racismo em um lugar possam ser totalmente replicados em outro. Não. Mas, podem inspirar e motivar. Há sempre algo a aprender uns com as experiências de outros.
Toda a riqueza e diversidade das experiências de resistência negra às estruturas seculares do racismo podem e devem ser democratizadas e potencializadas. Para isso é necessário a construção de possibilidades de trocas de experiências, intercâmbio, trabalho em rede e vontade de construir unidades de ação e, no futuro breve, um projeto político de libertação povo negro em todo o mundo.

Um negro é antes de tudo um negro, em qualquer parte da América: Efeitos do racismo nos EUA e Brasil

Nos EUA
Nos Estados Unidos, negras e negros representam apenas 13% do total populacional. Apesar de ser minoria numérica, um negro tem aproximadamente seis vezes mais possibilidade de acabar em uma prisão do que um branco, e 2,5 vezes mais do que um latino. Mais de 36% dos presos são negros; 33%, brancos (63% da população) e 22%, latinos (17%). 37% dos presos por consumo de entorpecentes são negros, ainda que eles representem 15% dos consumidores. 2,5 milhões de pessoas se encontram privadas de liberdade nos EUA, 41% dos presos são afro-americanos. No caso das prisões federais, este índice alcança 44%. Os afro-americanos representam 59% dos condenados e são 74% dos que recebem como sentença a prisão perpétua.
Segundo o defensor de direitos civis e fundador da Organização Justiça Igualitária, Alec Karakatsanis, “os Estados Unidos encarceram negros numa proporção seis vezes maior a África do Sul nos tempos do apartheid”.  Michelle Alexander, professora e especialista no tema do racismo sistêmico contemporâneo, assinala que atualmente há mais homens afro-americanos nos cárceres dos EUA, ou em liberdade condicional, que aqueles que estavam escravizados em 1850.
Após a vitória eleitoral de Donald Trump, o número de crimes de ódio contra negros e imigrantes só cresceu. E proliferaram cada vez mais grupos organizados com viés racista, xenófobo e de intolerância religiosa.
Em setembro de 2017, uma pesquisa promovida pela PerryUndem,  empresa com sede em Washington, demonstrou que cerca de dois terços dos afro-americanos se declaram preocupados com a presidência de Trump, e uma quantidade ainda maior acreditava que o país estava indo na direção errada. Um total de 84% dos negros americanos entrevistados disseram que sentiam que o país estava no caminho errado, enquanto somente 15% acreditava que estava na direção correta. Apenas 5% dos entrevistados disseram que achavam que as decisões políticas de Trump afetariam positivamente a população negra, enquanto 64% opinaram que o impacto será negativo.

No Brasil

O Brasil, maior país da América Latina, vive em verdadeiro estado de guerra, em um permanente e contínuo processo de genocídio dos descendentes de africanos escravizados.
52% da população brasileira é composta por pessoas negras. Em 2016, quase 62.000 pessoas negras foram mortas – um número maior do que o número de mortes causadas pela explosão da bomba atômica em Nagasaki. Entre 2011 e 2015, 279.000 pessoas foram assassinadas – mais do que na Guerra da Síria, que no mesmo período custou 256.000 vidas. Em média, metade das pessoas assassinadas a cada ano no Brasil tem entre 15 e 29 anos e 77% são negras. Em 2015, o Brasil ultrapassou a Rússia em números absolutos de pessoas presas. Há mais de 700.000 pessoas encarceradas hoje e a maioria delas é negra.
O aumento do encarceramento e da violência policial têm como principal motor a política de Guerra às Drogas. Há tempos o “tráfico de drogas” tem sido o principal motivo de aprisionamento no Brasil. Um em cada três presos no país respondem a acusações de tráfico de drogas e afins.
Após o controverso processo de impeachment, em 2016, que depôs a presidenta Dilma e elevou Michel Temer à presidência da república, direitos sociais passaram a ser atacados, investimentos públicos em políticas sociais voltados para os mais necessitados foram congelados, decisão que afeta principalmente a população negra, que representa 70% dos mais pobres. Uma série de legislações de recrudescimento do estado penal, inclusive intervenções militares em algumas capitais brasileiras tais como Rio de Janeiro e Fortaleza, no Ceará, aumentaram ainda mais o número de negros presos e mortos.
Mas a situação política brasileira passou a inspirar  ainda mais preocupação aos defensores da democracia em todo o mundo. Após a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, o poder central do país estará nas mãos de um grupo político que anunciadamente se coloca contrário aos valores de direitos humanos e pior, que explicitam suas predileções por políticas favoráveis ao recrudescimento penal, à força e a violência como pratica formal da ação policial, o encarceramento em massa, a relativização de métodos de tortura e a criminalização de movimentos sociais. Ao mesmo tempo, também conforme se anunciou por toda campanha eleitoral, será um governo que priorizará cortes de direitos sociais, o que atingirá em cheio a população negra, contingente sobrerepresentado entre os mais pobres, logo, os que mais precisam de serviços públicos do estado. Bolsonaro e seus principais aliados se aliam à política de Donald Trump, tanto no conteúdo econômico, radical-liberal, quanto na forma, preconceituosa, violenta, xenófoba, homofóbica, machista e racista, enfim, extremamente conservadora do ponto de vista moral.
 Estados Brasileiro e Estadunidense, responsáveis pelo genocídio negro nas Américas
Os Estados Unidos e o Brasil carregam um triste e doloroso traço comum em suas histórias como nações soberanas: a experiência da escravidão mercantil e do colonialismo secular que deixou em ambos os países um legado de racismo anti-negro que organiza as duas sociedades e estrutura desigualdades e violência que historicamente afeta as comunidades negras. Ainda hoje, no século 21, as práticas dos estados e governos sobre o que eles chamam de «Guerra ao Terrorismo» e «Guerra às Drogas» têm sido usadas para justificar práticas relacionadas à violência policial, encarceramento excessivo e morte de milhares de negros nos EUA e no Brasil. Além disso, negar as especificidades e semelhanças nas formas em que esses processos de opressão e controle social ocorrem em cada um desses países. No entanto, também existem especificidades e semelhanças no modo como as comunidades e organizações negras resistem, enfrentam o racismo e lutam pelos direitos humanos e pela justiça racial.
Unidade transnacional
A História e a realidade do agora aproxima as comunidades negras de Brasil e Estados Unidos. Faz necessária e urgente o estabelecimento e o fortalecimento de  conexões entre organizações, movimentos, intelectuais e ativistas negros de ambos os países, para trocas de experiências de resistências ao racismo em todas as suas dimensões, bem como da construção de uma rede de apoio mútuo, mobilização e ações concretas contra o racismo nas Américas.
A criação de uma Rede Transnacional de Resistência ao Racismo e ao Genocídio Negro nas Américas é urgente! Uma espécie de rede hemisférica contra a violência policial e o encarceramento em massa, um espaço de reflexões, formulações e ações que reúna grupos, organizações, ativistas, intelectuais e movimentos negros de EUA e Brasil, com intuito de fortalecimento e solidariedade mútua.
Diálogos, articulações e construções de ações comuns com diferentes atores e organizações que se preocupam e se dedicam ao enfrentamento ao racismo poderá impulsionar a luta antissistêmica em ambos os países. O principal papel organizações e movimentos negros, tanto lá quanto cá, tem sido pressionar as autoridades do governo a exigir a expansão dos direitos sociais, culturais, políticos e econômicos para a população negra. Trocar essas experiências pode ampliar o potencial e a efetividade das ações desses grupos.
 
Bibliografia
Michael Hanchard, Orpheus and Power: The Movimento Negro of Rio de Janeiro and São Paulo, Brazil, 1945-1988
Luiza Bairros, artigo, “Orfeu e Poder: uma perspectiva afro-americana sobre a política racial no Brasil”, ‘Publicado e m 1994 pela Princeton University Press
* Douglas Belchior é historiador, ativista de direitos humanos e professor da UNEAFRO

O pensamento da revolucionária polonesa reunido em quatro videoaulas com Isabel Loureiro

 
 
Por FRL
Após 100 anos de sua execução, as palavras, ações e ensinamentos de Rosa Luxemburgo seguem ecoando nas mentes e corações de pessoas em todo o mundo. Suas reflexões e ações inspiram o trabalho de ativistas sociais que acreditam na caráter emancipador das camadas populares. Em um momento em que a esquerda reflete sobre sua trajetória diante o avanço de forças conservadoras no Brasil e em outros países, a Fundação Rosa Luxemburgo relembra as videoaulas A atualidade do pensamento de Rosa Luxemburgo. A iniciativa, parceria com o LabExperimental, conta com quatro episódios temáticos, onde a professora Isabel Loureiro introduz a obra luxemburguista.
Confira abaixo as videoaulas.
 
Aula 1
A atualidade do pensamento de Rosa Luxemburgo
“Acho que junho de 2013 foi um momento Rosa Luxemburgo, que a gente pode chamar de momento Rosa Luxemburgo, em que houve todas aquelas manifestações de rua espontâneas”
 

 
Aula 2
A acumulação do Capital
E Rosa vai dizer: os capitalistas não aumentam sua produção só para aumentar a sua produção. Eles precisam de uma razão para isso. E a razão qual é: só pode existir uma demanda prévia a produção. E a resposta dela é a seguinte: essa demanda não pode vir daquele sistema fechado, já que o produzido é consumido. Essa demanda só será encontrada fora do sistema capitalista fechado. Ela virá das colônias, essa vai ser a resposta”
 

 
Aula 3
Feminismo
“E o que é curioso é que a própria Rosa Luxemburgo não percebia o quanto ela era importante para as mulheres alemãs. Ela fica muito espantada quando mil mulheres de Berlim vão buscá-la na prisão da Barnimstrasse em 18 de fevereiro de 1916, quando ela é solta, e lhe dão montanha de presentes”.
 

 
Aula 4
A insegurança da existência
“Assim um continente após o outro e em cada continente um país após outro, uma raça”, não está fora uma idéia de raça. É assim de supetão, não comenta muito mais fala, “uma raça após outra ficam inelutavelmente sobre a dominação do capital. Com isso inumeráveis milhões caem na proletarização, na escravidão, na insegurança da existência, em suma na miséria. E a nota da Rosa no rodapé: extermínio dos povos primitivos. Ela tá preocupada com isso”.
 

 
 
 

O crescente número de jovens negros periféricos assassinados nos últimos anos, apoiado pela falta de investigação dos crimes, demonstra um genocídio em curso
 

Em ato Contra o Genocídio da Juventude Negra, manifestantes protestam contra a morte de cinco jovens negros


 
Com o objetivo de refletir sobre o impacto da violência policial para a população negra no Brasil, com foco no estado de São Paulo, a Fundação Rosa Luxemburgo disponibiliza a íntegra da publicação Ponto de Debate nº19 Um Estado que mata pretos, pobres e periféricos, de autoria dea jornalista de direitos humanos Tatiana Merlino.
O periódico problematiza como o país ainda vive sob a égide do racismo e do classismo, resquícios de seu passado colonial e escravocrata. Questões como a resistência à estas mortes, o crescente encarceramento de homens e mulheres negras e a ausência desta pauta em grande parte da esquerda no Brasil também são debatidas na publicação, que ouviu especialistas no tema e familiares de vítimas da violência da Polícia Militar.
Acesse a íntegra do material
* Foto de Tomáz Silva/Agência Brasil


Há 100 anos, em 15 de janeiro de 1919, Rosa Luxemburgo foi assassinada em Berlim, na Alemanha. Como parte da programação para recordar o centenário de sua morte, a Fundação Rosa Luxemburgo apresenta pela primeira vez em português a biografia de Rosa Luxemburgo escrita por Paul Frölich e publicada originalmente em 1939. O livro, produzido e comercializado pela editora Boitempo e Iskra Edições, será apresentado na sexta-feira, dia 18 de janeiro, na Casa Plana, em São Paulo. O evento será realizado com apoio do Goethe-Institut São Paulo e contará com a presença de Diana Assunção, Isabel Loureiro e Larissa Coutinho, em uma conversa sobre vida e obra da escritora.
O autor Paul Frölich (1884-1953) participou da fundação do Partido Comunista Alemão em 1919 e nos anos 1920 foi responsável pela publicação das obras completas de Rosa. Conforme texto de apresentação escrito por Michael Löwy, a obra «é considerada ainda hoje referência indispensável. Desde então várias outras biografias de Rosa Luxemburgo foram publicadas, com mais informações e dados biográficos, mas segundo especialistas nenhuma contém a mesma afinidade profunda entre o autor e seu objeto».
Rosa Luxemburgo: pensamento e ação, 100 anos após seu assassinato
Debate com Diana Assunção, Isabel Loureiro e Larissa Coutinho
Data: Sexta-feira, 18/01/19
Horário: 19h às 21h
Local: Casa Plana
Endereço: Rua Fradique Coutinho, 1139 – Pinheiros, São Paulo – SP
Sobre a vida de Rosa Luxemburgo e o centenário de sua morte, veja também:
Especial sobre Rosa Luxemburgo e a radionovela sobre sua vida
A 100 años del asesinato de Rosa Luxemburg viven su gran labor y pensamiento revolucionarios – Rosa Luxemburg Stiftung Mx – em espanhol
Artigo: Rosa Luxemburgo permanece atual 100 anos depois de sua morte – Revista Época – em português
Documentário Rosa Luxemburg – Rebelle et visionnaire – Arte – em alemão e francês
Dossier – Rosa Luxemburg and the German Revolution – Rosa Luxemburgo Stiftung – em inglês
Historiadores veem eco de morte de Rosa Luxemburgo na política atual – Folha de S. Paulo – em português
La izquierda alemana rinde homenaje a Rosa Luxemburgo en el centenario de su asesinato – El País – em espanhol
La revolución Rosa – Página 12 – em espanhol
Michael Löwy: “Rosa Luxemburgo e Marielle Franco foram assassinadas porque incomodavam” – blog da Boitempo – em português
Pese a todo: a 100 años de los asesinatos de Rosa Luxemburgo y Karl Liebknecht – la diaria/Uruguai – em espanhol
‘Red Rosa’ Luxemburg and the making of a revolutionary icon – Deutsche Welle – em inglês
Rosa Luxemburg in Südamerika – Perspektiven nach dem Scheitern der linken Regierungen – taz/Alemanha – em alemão
Rosa Luxemburgo: 100 anos do assassinato da revolucionária pacifista – El País – em português
Rosa Luxemburgo y la militancia internacionalista como bandera – Gramsci en América Latina – em espanhol
Rosa Reloaded: Rosa Luxemburg and Our Civilisational Crisis – historical materialism – em inglês
Rosa, uma vida cor de luta – esquerda.net – em português

Livro de Alberto Acosta e Ulrich Brand apresenta debates que apontam a necessidade urgente de alternativas que superem — e aperfeiçoem — a modernidade
ACOSTA BRAND
Editoras Autonomia Literária e Elefante
Acosta nasceu em um pequeno país da América do Sul rico em recursos naturais e dono de uma das maiores biodiversidades do planeta. Brand vem da nação mais poderosa da Europa, reconhecida pelas indústrias de alta tecnologia. As distâncias não impediram, porém, que se juntassem para pensar alternativas complementares para o velho e o novo mundo. “O pós-extrativismo e o decrescimento são duas faces da mesma moeda”, escrevem.
Como se verá neste livro, o pós-extrativismo surge da resistência centenária dos povos latino-americanos, sobretudo das populações indígenas. Sem ceder a romantismos, os autores veem nos modos de vida tradicionais andinos e amazônicos exemplos de como deter o progresso e o desenvolvimento — que, como sabemos, destroem o meio ambiente, concentram renda e promovem desigualdade.
O decrescimento se origina na Europa, contrariando a ideia de que o crescimento econômico infinito é um caminho viável para melhorar a vida das pessoas. Típico do regime capitalista, este raciocínio desconsidera os impactos sociais e ecológicos do crescimento; seus defensores parecem esquecer que a evolução tecnológica dos países desenvolvidos depende da exploração de matérias-primas no mundo subdesenvolvido.
Pós-extrativismo e decrescimento contrariam radicalmente tais princípios. Até porque já não há dúvidas de que estamos depredando a Natureza em uma escala muito maior do que sua capacidade de regeneração. Além disso, a úlima crise do capitalismo não parece arrefecer: pelo contrário, continua avançando sobre direitos sociais e ecossistemas.
Na Europa — e, agora, também na América Latina — as políticas de austeridade estão fazendo com que a pobreza e a desigualdade voltem a aumentar: o Estado de bem-estar social sucumbe diante do mercado financeiro, enquanto novas fronteiras petrolíferas, mineiras e agropecuárias engolem a vegetação nativa, atropelando os Direitos Humanos e os Direitos da Natureza.
Acosta e Brand são categóricos: não existe justiça social sem justiça ambiental, e vice-versa. No momento em que a chamada “onda progressista” abandona a América Latina, e que a extrema-direita cresce em todas as partes, os autores apontam a necessidade urgente de alternativas que superem — e aperfeiçoem — a modernidade. Se nem as experiências socialistas nem as progressistas conseguiram romper com as ideias de progresso, desenvolvimento e crescimento, é preciso apurar a reflexão.
O pós-extrativismo e o decrescimento atacam o cerne do capitalismo. Para Acosta e Brand, o freio à exploração maciça dos recursos naturais na periferia do sistema deve aliar-se a uma reversão — não apenas a uma interrupção — do crescimento nos países centrais do capitalismo. “Estas discussões se nutrem da imperiosa necessidade de promover uma vida harmoniosa entre os seres humanos e entre os seres humanos e a Natureza. Este é, definitivamente, um grande desafio para a Humanidade — e implica ter em mente uma mudança de eras.”
Eis uma tarefa extremamente complexa e repleta de percalços, que os autores — renomados intelectuais críticos — não deixam de apontar. A começar pelo próprio nome: haveria maneira mais eficaz de expor as visões de mundo propostas pelo pós-extrativismo e pelo decrescimento? Seria melhor falar em Bem Viver, mas a saída do labirinto capitalista não é apenas uma questão terminológica. Por isso, o debate não se encerra em nomenclaturas. Em tempos de desesperança, este livro surge como um convite a caminhar radicalizando a democracia. “Porque precisamos de sempre mais democracia, nunca menos.”
Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista
Alberto Acosta e Ulrich Brand
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ISBN: 978-85-93115-19-6